quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Post estraído do blog do Mauro Ferreira


Resenha de CD
Título: Canibália
Artista: Daniela Mercury
Gravadora: Sony Music
Cotação: * * * 1/2

Canibália, o 13º álbum de Daniela Mercury, é coerente com seu título de origem antropofágica. Cosmopolita, a baiana põe no tabuleiro doses concentradas de eletrônica, um tantinho de r & b - em Life Is Beautiful, parceria com o rapper norte-americano Wyclef Jean, convidado do tema que celebra a vida e a Bahia - e um bocadinho de rap, evocado nos compassos iniciais de Trio em Transe. Contudo, por mais que carregue outros balangandãs neste álbum que remete ao iluminado disco Sol da Liberdade (2000) pela maior liberdade estética e pelas bases eletrônicas de várias faixas, a baiana oferece como quitute principal o samba de sua terra. Celebrado tanto na faixa intitulada Benção dos Sambas - ummedley que agrega Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso), Samba da Minha Terra (Dorival Caymmi) e Samba da Benção (Baden Powell e Vinicius de Moraes) - como na batucada que encerra a turbinada releitura eletrônica de Tico-Tico no Fubá, o choro de 1931 que deu projeção internacional ao compositor Zequinha de Abreu (1880 - 1935) na voz de Carmen Miranda (1909 - 1955). Tempero natural da azeitada salada tropicalista de Canibália, aBrazilian Bombshell é citada em verso de Trio em Transe - tema que relaciona na letra personagens e filmes do cinema brasileiro - e tem sua voz sampleada por Daniela no charmoso dueto virtual de O Que É Que a Baiana Tem?, o samba-emblema do recorrente Dorival Caymmi (1914 - 2008). A baiana tem visão internacional...

Por mais que atravesse fronteiras ao perseguir um tom cosmopolita, numa busca refletida nos versos poliglotas de One Love (faixa que soterra a percussão baiana sob beats eletrônicos),Canibália cresce justamente quando gira em torno do samba da terra. Oyá por Nós - parceria de Daniela com Margareth Menezes - é aquecida pelo calor da voz de Maga e do baticum afro-baiano. Omedley Preta - que junta Eu Sou Preto (J. Velloso e Mariene de Castro) com Sorriso Negro (Adilson Barbado, Jair Carvalho e Jorge Portela) - celebra a negritude num tom mestiço que remete ao último álbum de estúdio da cantora, Balé Mulato (2006). Convidado da faixa, Seu Jorge defende com propriedade o samba popularizado por Ivone Lara em 1981, com direito a discurso por mais cidadania e trabalho ao fim do tema. É bom momento deCanibália, assim como Sol do Sul, reggae que - a despeito de ter sido feito por Daniela com seu filho Gabriel Póvoas na invernal Londres - ilumina a ideia política da integração da América do Sul.

Feito sob a luz da alegria, traço recorrente na ensolarada discografia de Daniela e mote da faixa A Vida É um Carnaval,Canibália celebra também os direitos indígenas em Dona Desse Lugar, exalta o amor (e a liberdade de amar) na balada Castelo Imaginário e agrega familiares da artista nos vocais afetuosos deCinco Meninos, a música mais pungente do CD. Nesse mosaico antropofágico, há ainda espaço para a releitura moderninha de O Que Será? (À Flor da Pele), o tema lançado por Chico Buarque em 1976. No todo, Canibália não chega a figurar entre os melhores discos de Daniela, porque nem sempre as músicas inéditas estão à altura das ideias defendidas nas letras, mas a baiana reafirma a habitual inquietude ao se enfeitar com novos balangandãs e ao recusar a mesmice imperante no ritmo rotulado como axé music.

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